Se você é fisioterapeuta e atende pelo CNPJ, a conta do imposto fisioterapeuta PJ vai mudar a partir de 2027. O consultório é o mesmo, os pacientes são os mesmos e o faturamento também. Mesmo assim, o valor que sai do seu caixa pode ficar bem diferente por causa de uma escolha que você vai ter que fazer. Aqui eu explico, sem juridiquês, o que muda com a reforma tributária, quais são os quatro caminhos que você passa a ter e como fazer essa conta antes de o problema chegar.
Isso não vale só para fisio. Se você é fonoaudiólogo, psicólogo, nutricionista ou terapeuta ocupacional, ou seja, trabalha com saúde e tem CNPJ, presta atenção, porque a lógica é a mesma. De uma profissão para outra mudam alguns detalhes, e eu vou mostrar onde eles aparecem.
Imposto fisioterapeuta PJ: como funciona hoje
Antes de falar de 2027, vale entender o ponto de partida. Fisioterapia é profissão regulamentada por conselho, então não pode ser MEI. Quem quer CNPJ abre uma microempresa, como empresário individual ou sociedade limitada, e escolhe um regime tributário, ou seja, a forma como a empresa vai calcular e pagar os impostos. Hoje são três opções:
- Simples Nacional: quase todos os impostos saem numa guia só, o DAS, com um percentual sobre o faturamento. É o regime mais usado por consultórios pequenos.
- Lucro Presumido: a Receita presume que uma parte do seu faturamento é lucro e cobra imposto de renda e contribuições sobre essa parte. Os impostos sobre o faturamento, como PIS, Cofins e ISS, são pagos separados.
- Lucro Real: o imposto de renda é calculado sobre o lucro de verdade, ou seja, receita menos despesas. Dá mais trabalho e costuma fazer sentido para negócios maiores ou com margem apertada.
Para a maioria dos consultórios e clínicas pequenas, a disputa fica entre o Simples e o Presumido. E dentro do Simples tem um detalhe que pesa muito: o Fator R.
Fator R: a regra que decide a tabela do Simples
O Fator R é a divisão entre a folha de pagamento da empresa e o faturamento, sempre olhando os últimos 12 meses. Na folha entram os salários dos funcionários e também o seu pró-labore, que é o salário que você tira pela empresa. Para as atividades de saúde que seguem essa regra, funciona assim:
- Fator R igual ou acima de 28%: a empresa fica no Anexo III, a tabela mais barata, que começa em 6%.
- Fator R abaixo de 28%: a empresa cai no Anexo V, que começa em 15,5%.
Ou seja, quem tira um pró-labore muito baixo para economizar pode acabar pagando bem mais de DAS. Agora, um cuidado importante: o enquadramento no Simples depende de como a atividade está descrita na lei e de como ela aparece no CNAE da sua empresa. Algumas atividades de saúde seguem a regra do Fator R e outras têm tratamento próprio. Então, antes de mexer no pró-labore por causa do Fator R, peça para o seu contador confirmar em qual regra o seu CNPJ está hoje.
Reforma tributária para profissionais da saúde: o que muda em 2027
A partir de 2027 entra a CBS, a Contribuição sobre Bens e Serviços, que é o imposto federal novo e vem para substituir o PIS e a Cofins. Já o IBS, que vai ficar no lugar do ISS da prefeitura e do ICMS do estado, chega aos poucos, numa transição de vários anos. Ou seja, em 2027 a conta que mais pesa no seu bolso é a da CBS.
Para quem está no Simples também tem novidade. Até agora a escolha era basicamente entre Simples, Presumido e Real. Com a CBS aparece uma quarta porta: continuar no Simples, mas pagar a CBS e o IBS fora do DAS.
E tem mais um ponto. A reforma prevê regras diferenciadas, com alíquota reduzida, para parte dos serviços de saúde e para algumas profissões regulamentadas. Quais atividades entram e qual é o tamanho da redução você precisa checar no seu caso. Isso muda a comparação, principalmente se você pensa em sair do Simples.
Os 4 caminhos do seu CNPJ a partir de 2027
- Simples Nacional do jeito de hoje. Tudo numa guia só, o DAS, e pronto. A CBS fica dentro da guia, no lugar do PIS e da Cofins.
- Simples com CBS e IBS por fora. Você continua no Simples para os outros impostos, mas a CBS e o IBS saem do DAS e são pagos separados, igual empresa grande.
- Lucro Presumido. Imposto de renda e contribuições sobre o lucro presumido, mais a CBS (e, aos poucos, o IBS) calculados à parte.
- Lucro Real. Imposto de renda sobre o lucro de verdade, mais CBS e IBS no sistema de débito e crédito.
O Presumido e o Real costumam entrar na conversa quando o faturamento cresce e a alíquota do Simples sobe, ou quando a margem muda muito. Para o consultório pequeno, a briga mais interessante de 2027 tende a ser entre os dois primeiros caminhos.
CBS e IBS por fora do Simples: o que isso quer dizer na prática
A CBS e o IBS funcionam no sistema de crédito. Ou seja, o imposto que aparece na sua nota vira um crédito para o seu cliente, que desconta esse valor do imposto que ele mesmo tem que pagar. Se você fica no Simples tradicional, o crédito que passa para o cliente é menor, porque fica limitado ao que você recolhe dentro do DAS. Se você paga a CBS e o IBS por fora, o cliente recebe o crédito cheio.
Parece ótimo, né? O problema é que pagar por fora normalmente significa pagar mais imposto na sua empresa. Então a pergunta certa não é se o crédito existe. É se o seu cliente consegue usar esse crédito. Se ele não consegue, você está pagando mais caro para entregar um benefício que ninguém aproveita.
Exemplo: a Juliana, fisioterapeuta que fatura 20 mil por mês
Vamos para o dia a dia. A Juliana é fisioterapeuta, tem uma clínica pequena e fatura 20 mil reais por mês, o que dá 240 mil em 12 meses. Quem paga é o paciente, pessoa física. Ela compra pouca coisa: aluguel, material de consumo e, de vez em quando, um aparelho novo.
Primeiro, o Fator R. Vamos supor que o CNPJ dela esteja na regra do Fator R. Para ficar no Anexo III, a folha precisa ser de pelo menos 28% do faturamento. Com 20 mil por mês, isso dá 5.600 reais de folha por mês. Ela não tem funcionário, então esse valor tem que vir do pró-labore. Se ficar abaixo, ela cai no Anexo V.
E a diferença não é pequena. Com 240 mil em 12 meses, a Juliana está na segunda faixa do Simples. Nessa faixa, a alíquota nominal do Anexo III é de 11,20% e a do Anexo V é de 18%. A alíquota que ela paga de verdade fica abaixo da nominal, porque cada faixa tem uma parcela a deduzir. Mesmo assim, só de olhar a tabela já dá para ver o tamanho do salto.
Agora, 2027. Quando você coloca os quatro caminhos lado a lado, o que pesa contra o Simples com CBS e IBS por fora é o perfil do cliente dela. Os pacientes são pessoas físicas, ou seja, consumidores finais, e consumidor final não usa crédito de CBS. No caso da Juliana, pagar por fora tende a sair mais caro sem trazer vantagem nenhuma para quem paga a sessão. O Lucro Presumido e o Lucro Real também precisam ser simulados. Só que, com pouca despesa para gerar crédito e com cliente pessoa física, a tendência é o Simples de sempre continuar na frente.
Repara que eu falei tendência. A conta final depende dos números dela, e por isso essa simulação tem que ser feita CNPJ por CNPJ.
E se quem te paga é empresa?
Aí a história muda. Pensa numa fisioterapeuta que presta serviço para uma clínica maior que terceiriza atendimentos, ou que atende uma empresa que contrata ginástica laboral para os funcionários. Esse cliente é empresa e, dependendo do regime dele, consegue aproveitar o crédito de CBS e IBS.
Nesse cenário, o crédito vira dinheiro no bolso do seu cliente. Quem gera mais crédito pode virar o fornecedor preferido ou negociar preço de outro jeito, e aqui o Simples com CBS e IBS por fora pode começar a fazer sentido. Quem atende por convênio ou plano de saúde também precisa olhar com calma, porque essas operações têm regras próprias. Antes de decidir, responda:
- Quem paga a maior parte do meu faturamento: o paciente ou uma empresa?
- Esse cliente empresa está em qual regime tributário?
- Ele já perguntou sobre crédito de imposto ou pediu nota com o imposto destacado?
Simples Nacional ou Lucro Presumido para clínica: o que mais mexe na conta
Além de quem é o seu cliente, outras coisas mudam o resultado. A mesma fisioterapeuta, em outra cidade e com outro cliente, pode ter outra resposta.
- A sua cidade. O ISS muda de município para município e costuma ficar entre 2% e 5%. Isso pesa direto em quem está fora do Simples.
- O seu pró-labore. Pró-labore alto ajuda no Fator R, mas tem desconto de INSS e pode ter imposto de renda na pessoa física. O trabalho é achar o ponto de equilíbrio.
- A sua margem. Se sobra pouco lucro depois das despesas, o Lucro Real pode entrar na conversa. Se sobra bastante, o Simples ou o Presumido tendem a competir melhor.
- As suas compras. Quem paga CBS e IBS por fora pode tomar crédito sobre o que compra. Só que clínica que compra pouco tem pouco crédito para abater.
- A redução para a saúde. Se a sua atividade tiver alíquota reduzida na reforma, a comparação entre os regimes muda.
- A sua faixa de faturamento. Quanto mais você cresce dentro do Simples, maior fica a alíquota, e em algum momento o Presumido pode passar a valer a pena.
Imposto psicólogo PJ e outras profissões da saúde
Se você é psicólogo, fonoaudiólogo, nutricionista ou terapeuta ocupacional, tudo o que eu falei sobre os quatro caminhos vale para você. A diferença mais comum está no enquadramento do Simples: confirme com o seu contador se a sua atividade segue a regra do Fator R. Se seguir, o pró-labore entra na conta todo mês. O psicólogo que atende só paciente particular está no mesmo barco da Juliana, com um cliente que não aproveita crédito. Já quem atende empresas, por exemplo em programas de saúde mental para funcionários, precisa simular o cenário com CBS e IBS por fora.
Passo a passo para chegar em 2027 com a conta pronta
- Levante o faturamento dos últimos 12 meses e a previsão para o próximo ano.
- Separe quanto vem de paciente pessoa física e quanto vem de empresa, convênio ou clínica parceira.
- Confira o CNAE da sua empresa e em qual anexo do Simples você está hoje.
- Calcule o seu Fator R e veja se o pró-labore atual faz sentido.
- Anote o ISS da sua cidade e as principais despesas da clínica.
- Simule os quatro caminhos com esses números: Simples tradicional, Simples com CBS e IBS por fora, Lucro Presumido e Lucro Real.
- Decida antes do prazo de opção, que não fica aberto o ano inteiro.
Essa escolha não é para fazer correndo no fim do ano. A opção pelo regime e pela forma de pagar CBS e IBS tem janela certa, e quem perde o prazo fica no caminho em que já estava. Você tem que chegar em 2027 com essa conta pronta.
Perguntas frequentes
Fisioterapeuta pode ser MEI?
Não. Fisioterapia é profissão regulamentada e não está na lista de atividades permitidas no MEI. Registrar o CNPJ com outra atividade só para caber no MEI é irregular e pode dar dor de cabeça. O caminho é abrir uma microempresa e escolher o regime.
Quanto um fisioterapeuta PJ paga de imposto no Simples Nacional?
Depende da faixa de faturamento dos últimos 12 meses e do anexo. No Anexo III a tabela começa em 6%. No Anexo V, começa em 15,5%. A alíquota efetiva fica abaixo da nominal por causa da parcela a deduzir de cada faixa, então o valor exato sai da conta com os seus números.
A CBS de 2027 muda o imposto de quem está no Simples Nacional?
Para quem continua no Simples tradicional, a lógica da guia única continua, com a CBS entrando no lugar do PIS e da Cofins dentro do DAS. A grande mudança é que passa a existir a opção de pagar CBS e IBS por fora, e essa escolha mexe no crédito que você entrega ao cliente.
Vale a pena pagar CBS e IBS por fora do Simples?
Costuma valer só quando boa parte do seu faturamento vem de empresas que aproveitam o crédito. Se o seu público é paciente pessoa física, a tendência é pagar mais sem vantagem para ninguém. A resposta definitiva vem da simulação.
É melhor atender como autônomo ou com CNPJ?
Na pessoa física, o profissional paga imposto de renda pela tabela progressiva, que pode chegar a 27,5%, além de INSS como contribuinte individual e ISS. Conforme a renda cresce, o CNPJ costuma ficar mais interessante, mas a decisão depende do seu faturamento e das suas despesas.
Posso trocar de regime quando quiser?
Não. A troca tem prazo e a escolha vale por um período. Por isso é importante decidir com antecedência, e não no susto.
Quer saber quanto a sua empresa vai pagar e qual regime é melhor para você? Fale com a Networking Contabilidade pelo WhatsApp. A gente pega o seu faturamento, o seu pró-labore, a sua cidade e quem é o seu cliente, e mostra qual dos quatro caminhos faz mais sentido no seu caso. Se quiser acompanhar mais conteúdos assim, segue o Igor no Instagram e no canal do YouTube.
A CBS chega em 2027 de qualquer jeito. O que está na sua mão é chegar lá preparado.




